A cena que vi ao desembarcar no Porto de Manacapuru, hoje, por volta das 8:30 horas foi um misto de tristeza, horror, tragédia anunciada...Centenas de pessoas atônitas, umas chorando, outras em silêncio fúnebre. Todas incrédulas! Todas atônitas com a notícia do naufrágio do Comandante Sales, embarcação regional que fazia o transporte de pessoas que haviam passado a noite na Comunidade Pesqueiro, por conta de uma festa local.
Era difícil encontrar alguém que não estivesse com os olhos marejados e comovidos. Pior do que saber da tragédia é a incerteza em relação aos passageiros que estariam ou não na embarcação, já que é regra se embarcar sem qualquer controle, nem mesmo um pedaço de papel é utilizado para anotar os nomes dos passageiros embarcados.
Assim, hoje pela manhã centenas de pessoas corriam pelas ruas da cidade em direção ao porto em busca de notícias de seus parentes, que foram ao festejo do Pesqueiro na noite anterior.
A cidade passará dias até ter uma idéia de quem estava no barco e quantos efetivamente foram tragados pelas águas do Solimões, entretanto, o luto já se faz presente entre cada um dos moradores. Um luto que não pode ser atribuído apenas a uma fatalidade. O naufrágio não pode ser computado como um acidente, mas como uma tragédia anunciada (uma de tantas outras) resultado de um conjunto fatores.
Esta tragédia é o dantesco espetáculo de horrores que reúne sempre os mesmos personagens: Imprudência, irresponsabilidade, "hábito cultural"(!!!???), falta de fiscalização e embarcações lotadas.
Por mais que se recomende e advirta os passageiros teimam em embarcar em verdadeiras armadilhas fluviais ao entrar em barcos visivelmente superlotados. Muitos destes passageiros, quando são advertidos por passageiros prudentes – que se recusam a embarcar em tais “barcas furadas” – invariavelmente retrucam com frases do tipo: “ah, é assim mesmo, estamos acostumados e não tem problema não”.
Os comandantes das embarcações fazem olhos e ouvidos de mercador, se recusando a “se indispor com passageiros”, permitindo que todos e quaisquer passageiros embarquem, sem o prévio controle da lotação estipulada.
De outra parte a Capitania dos Portos, que deveria fiscalizar o transporte fluvial, irresponsavelmente conserva sua frota ancora no seu porto seguro. Mesmo tendo conhecimento do calendário festivo das comunidades da calha do Solimões, incluindo o numero médio de embarcações envolvidas nestes festejos, o Comando da Capitania dos Portos, sediado em Manaus, optou por manter sua frota ancorada, ao invés de enviá-la aos locais de saída das embarcações (porto de Manacapuru, Novo Airão, Beruri e outros). Milhares de pessoas trafegando por um dos rios mais perigosos da Amazônia e as embarcações da Capitania ali no Roadway, como pude constatar ao chegar em Manaus por volta das 11 horas da manhã, menos de 5 horas depois do naufrágio do Comandante Sales.
Os números ainda são inconclusos, variando de
Manacapuru não será a mesma depois do naufrágio de hoje, independentemente do numero real de vítimas. Toda a população da "Princesinha do Solimões" foi vitimada por esta tragédia. Algumas famílias poderão, ao menos, velar e sepultar seus parentes, outras tantas já estão condenadas a viver um luto inconcluso, como sempre ocorre nestes episódios, o Solimões devolverá algumas das vítimas enquanto que outras ficaram com ele, pela eternidade.
Meus sentimentos ao povo de Manacapuru. Que fiquem em paz, ainda que tomados de muito dor.
2 comentários:
Meu amigo Luiz,
ainda não acredito no que aconteceu.... ainda estou arrasada, sem palavras....
e a imprensa só fala sobre "lotação acima da média".
meus sentimentos a todas as famílias envolvidas nesta tragédia!!
que fiquem em paz!!!
beijo
-Ainda é muito dificil falar sobre o esse acidente que levou 6(seis)Familiares meus ..
Sinto Muita Saudade deles ..
Obrigada por ter se preocupado .
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